Blog de Asas

É por aqui que eu escrevo pelos cotovelos. É por aqui que eu falo pela língua, pelos poros, pelos pelos e pelos dedos. Literatura, culinária e o que mais ocorrer.

#thepravdafellings

“As mais importantes operações do trabalho são reguladas e dirigidas pelos planos e especulações daqueles que aplicam os capitais; e o objetivo que eles pressupõem em todos estes planos e projetos é o LUCRO(em itálico no original). Mas a taxa de lucro, tal como a renda de terras e os salários, não sobe com a prosperidade nem diminui com a decadência da sociedade. Pelo contrário, essa taxa é naturalmente baixa nos países ricos e alta nos países pobres; e nunca é tão elevada nos países que caminham rapidamente para a ruína. O interesse desta classe (os que vivem do lucro) não possui, assim, a mesma relação com o interesse geral da sociedade, como as outras duas…/—>Esse jovem Marx…Descreve a enquanto classe os especuladores do mercado financeiro, que ao viverem de apostas e de juro, conseguem obter uma quantidade brutal de renda independentemente da prosperidade ou penúria mundial. #thepravdafellings…ah, esse é um trecho dos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, de Karl Marx.

Ogum Oxóssi São Jorge

Ogum Oxóssi São Jorge

 

Oxóssi meu pai caçador,

Ogum meu tio guerreiro,

São Jorge santo justiceiro,

abram meus caminhos!

 

Destruam todas as armas

Que portem os meus inimigos,

Vistam meu corpo de pétalas,

E me armem de espinhos!

 

Trago guias e amuletos,

Estou vestido com sua armadura,

me cubro com seu manto vermelho:

Que todo mal contra mim disparado

Encontre uma muralha e um espelho!

 

Sou guardado por santo forte,

Santo orixá de guerreiro,

Ogum Oxossi São Jorge,

O santo é santo justiceiro!

 

Sabe do aço forjado na terra,

Bebe das ervas do fundo das matas,

Sabe dos fracos e dos indefesos,

Dos vitimados nas injustas batalhas,

Tudo vê, tudo ouve, nada cala!

Tudo vê, tudo ouve, nada cala!

 

Para ouvir o poema, clique aqui ou no player aí embaixo. Rolando a barra lateral do player, você encontra o resto da poesia em voz alta.

Juhareiz Correya em Voz Alta

Esse poema primeiro me veio na voz do poeta Lara, em Recife, num recital poético qualquer.

Acho um poema simplesmente um soco bem forte no meio do estômago.

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Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita.

são olhos fogo acesso fogo morto

os ombros magros e firmes suportam o meu peso

e de todos os homens do bar das ruas das famílias

do meretrício da igreja da prefeitura

eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja

que eu diga realmente.

Suas mãos afiladas movem-se

na mesma cadência dos cubos de rum gelo tilim tilim

no copo, o poeta estende-se na minha frente

como um campo largo e canta o hino nacional

com um sorriso falso,

o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz:

todos esses anos não escondem um país de merda,

o balcão do bar é de merda,

as mesas do bar são de merda,

os homens fedem as ruas fedem

as casas os cinemas as intenções fedem

e eu sou um rato miserável porque não sei gritar

até me arrancarem os pulmões.

Alguém passa assoviando o poeta se afoga

no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto

mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe

e o poeta angustiado derruba as paredes do bar,

agita o teto do bar para o alto,

eu espero um dia alguém se aproximar e dizer, você é poeta?

quem foi que disse que você é poeta?

que autoridade te reconheceu e te permitiu ser poeta?

a que sociedade você pertence?

e o poeta não sabe que os poetas são presos

e espancados e seviciados e mortos neste lugar inocente.

Nem sabe que é mais indesejável que um ladrão vulgar.

Nem sabe que preparam sua derrota

em uma folha de papel ofício timbrado do governo.

Cogumelos gigantes levantam-se dos seus sapatos

e a multidão de medíocres não sabe

escolher uma admiração

com os aplausos preparados

para um palhaço sem tomate no nariz

de gravata, estampa brilhante na televisão.

Nem preciso contar a história,

as histórias dos jogadores de futebol

que são heróis no meu país alegre,

por um gol se faz um herói no meu país alegre!

e aqui o poeta espreme um pouco de angústia

entre cubos de gelo e se afoga em rum falso

sem hino nacional para alegrar as noites do meretrício

da igreja quando as casas e os cinemas fecham

e os homens fedem

Juhareiz Correya

Caldeirada da Aurora

Caldeirada da Aurora

Você vai precisar de:

4 cebolas médias picadas
2 tomates maduros médios picados e sem sementes
1 pimentão verde grande picado
1 tempero verde (eu uso coentro e cebolinha…)
2 cocos ralados
100g de castanha de caju (passada no liquidificador na hora)
1 kg de sururu (normalmente já é vendido cozido)
1/2 kg camarão sem casca
temperos (eu uso sal, 1 colher de sopa de cominho e outra de coloral ou açafrão)
Azeite de oliva

Inicie o preparo de leite de coco (esquentando a água) e do molho simultaneamente.

1° Preparando o leite de coco:

Basta aquecer água (não precisa da temperatura de fervura) e colocar o coco ralado. Aguarde 5 minutos e extraia o sumo com o auxilio de uma peneira. É esse sumo que será usado na caldeirada.

2° Preparando o molho:

Primeiramente vamos preparar o molho, que consiste basicamente num refogado. Iniciamos refogando a cebola no azeite de oliva até dourar. Em seguida, acrescente o pimentão e por último o tomate. Quando as verduras começarem a desmachar, coloque-as no liquidificador junto com um pouco do leite de coco, a castanha de caju e uma mão do coco que foi usado pra fazer o leite de coco. Bata até ‘liquidificar’ mesmo.


Junte esse molho com o restante do leite de coco e comece a temperar a gosto. Quando o paladar começar a se apaixonar por esse caldo, dê a última provada (calma, só durante 20 min…) e coloque o sururu e o camarão. Ferva por pelo menos durante 20 min pra matar os estáfilos e as E. coli dos nossos quitutes.

Por último, coloque os temperos verdes, aguarde 5 min, prove, aprove e pode servir.

Não esqueça a Farinha, a pimenta e o azeite!

E bom Apetite!

A ‘Caldeirada da Aurora’ com as medidas aqui apresentadas foi feita com muita creative commons: foi desenvolvida e experimentada na Casa dos Macacos, com um monte de gente temperando e botando a mão na panela. Menção honrosa ao grande Natan, cozinheiro de norte-sul-leste-oeste, e sua ideia de por farinha de castanha de caju na panela! A Casa dos Macacos, uma república que ficava num prédio beirando a Rua da Aurora. Com janela de parede inteira na sala, é uma  das vistas mais bonitas do Recife, das que não deixam de habitar a memória…

Asas em voz Alta – Minha Medicina é Luta

Normalmente escrevo sobre assuntos outros que não os diretamente relacionados ao meu trabalho. Não é uma seletividade temática intencional, mas vocês sabem, a medicina já ocupa tanto espaço na vida de quem a leva com intensidade que meus escritos sempre refletiram outras dimensões da existência, quase os meu outros eus exigindo espaço para que possam emitir outros discursos. Meu dispositivo antimonotonia.

Mas, no fim da faculdade, quando a gente mergulha de cabeça num cotidiano cheio de pessoas em sofrimento, medos, tragédias, pequenos (e grandes) milagres, situações revoltantes e aviltantes, momentos onde se revelam o pior e o melhor dos bichos humanos, foi justamente aí nesse momento que a medicina me chacoalhou de verdade, e pari esse poema.

Tenho muito carinho por ele, mais até por sua dimensão política que pela estética. É meu grito, meu manifesto ético-político, meu juramento hipocrático particular.

 

Leia o poema aqui.

Escute o poema aqui ou no player aí embaixo. Rolando a barra lateral do player, você encontra o resto da poesia em voz alta.

 

 

Minha medicina é luta

Minha medicina é luta

 

Minha medicina é luta:

É ouvir a vida que grita

e não pode ser deixada pra lá.

É a mão que não reluta

em fazer o corpo avançar.

 

Minha medicina é luta:

Luta que não se curva

e que se recusa a fazer pouco caso da dor alheia.

A dor não é mais um grão

a adentrar meu banco de areia.

 

Minha medicina é luta,

que faz da arte uma escuta.

Que algumas vezes cura,

Mas sempre cuida

e às vezes erra, como humana que é.

 

Minha medicina é luta,

porque existe vida,

e vida nunca pode esperar.

E quem quiser que se faça de surdo

que eu vou me embora com tudo

que se há pra lutar.

Retorno do Abandono

Parecia presságio. Trouxe ao blog um poema de que gosto muito, chamado “Abandono”, e abandonei  blog de Asas por quase 4 meses. Foi como se as palavras dos versos finais tivessem ficado ecoando por aqui.

” (…)

Assim, borboletas chegavam em casa quase mortas

de silêncio

E as garças eram tarde demais.”

Fiquei em em silêncio, por motivos alheios à poesia. O pouco tempo de ócio a que tive direito nos últimos meses, na rotina residência médica, mestrado profissional, trabalho em São Bernardo do Campo e a militância na Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo, realmente têm levado muito do meu tempo e energia para um outro tipo de poesia, de aprendizados técnicos, científicos, políticos & militantes…

Mas, vamo que vamo que o circo não pode parar. Cada dia é um dia, cada ano é um ano.

E o ano muda e a gente estabelece novas metas pra vida. Pro trabalho, pros estudos, pra militância, pra poesia e pro blog.

Aqui anuncio que sigo na meta de construir uma vida na qual não me faltem alimentos e sono saudáveis, e tudo que isso afeta o autocuidado necessário para uma existência feliz, produtiva, poética, lúdica, aguerrida e sem amargura. Por que ninguém precisa de mais nada em tom de cinza nessa vida; já bastam o asfalto, o concreto e a fumaça.

Assim, retorno do Abandono.

Manoel de Barros em Voz Alta – O ABANDONO (PARTE FINAL)

Se alguém não conhece Manoel de Barros, saiba que a poesia dele é dessas que fazem alçar voo em revoada os passarinhos pousados na cabeça da suas lembranças. Aos 95 anos, segue com uma constatação que se anuncia em cada sorriso. Ele não teve outra idade; só infância.

Quem ficar curioso, corra atrás que encontrará muita coisa: “Poesia Completa – Manoel de Barros” que foi editado em 2010 pela editora Leya, se encontra em qualquer livraria por aí. O documentário “Só dez por cento é mentira” também é fácil de encontrar.

Para saber mais sobre Manoel de Barros, clique aqui.

Para ouvir o poema, clique aqui ou no player aí embaixo. Rolando a barra lateral do player, tem o resto da poesia em Voz Alta.


O ABANDONO (PARTE FINAL)

A cidade mancava de uma rua até certo ponto;

depois os cupins a comiam

A gente vivia por fora como asa

Rã se media na pedra

Ali, eu me atrapalhava de mato como se ele

invadisse as ruínas de minha boca e a enchesse

de frases com morcegos

Saudade me urinava na perna

Um moço de fora criava um peixe na mão

Na parte seca do olho, a paisagem tinha formigas

mortas

Eu era sempre morto de lado com a cabeça virada

pro mar e umas gramas de borboletas amarelas

Estadistas gastavam nos coretos frases furadas,

já com varetas no ânus

A terra era santa e adubada

As mulheres tratavam-nos com uma bundura

extraordinária

Tudo se resolvia com cambalhotas

Um homem pegava, pra fazer seu retrato, pedaços

de tábua, conchas, sementes de cobra

O outro capengava de uma espécie de flor aberta

dentro dele

Um outro não podia atravessar a rua sem apodrecer

E um sexto ficava de muletas toda noite para

qualquer lagartixa

Do alto da torre dizia o poeta: eu faço uma

palavra equilibrar pratos no queixo…

Assim, borboletas chegavam em casa quase mortas

de silêncio

E as garças eram tarde demais.

Eu sei. Meu poema te incomoda.

Eu sei.

Meu poema te incomoda.


Preferias que eu não escrevesse nada

nem uma linha sobre nós.

Dizes que gosto de desenterrar cadáveres

e hastear num mastro suas faces em decomposição.

Mas, que queres que eu faça então?

Que esconda a dor do desengano?

Que a enterre abaixo do concreto

num chão sem lápide de um quintal qualquer?

Queres que eu use maquiagem sobre minhas cicatrizes

e esconda do mundo o quanto nosso passado

me esfaqueou?!

 

Não.

Definitivamente não.

Quero todos os meus eus mortos ao relento.

Mais que espetáculo,

meus sentimentos mortos querem ser assombração.

Querem habitar varandas, sacadas e terraços

querem todas as platéias e todos os palcos,

querem ser hasteados no mastro

tremulando suas faces em decomposição.

Cabral em Voz Alta – A mulher e a casa

Esse poema tem a sutileza erótica que faz de Cabral um dos gigantes da poesia brasileira. É alguém que caminha entre pedras concretas e compactas. Não usa lápis, usa faca bem afiada. Fala de homens e mulheres sublimes, ainda que tenham pedras na alma.

Para saber mais sobre João Cabral de Melo Neto, clique aqui.

Para ouvir o poema, clique aqui ou no player aí embaixo. Rolando a barra lateral do player, tem o resto da poesia em Voz Alta.

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

Do livro “Serial e antes”, editora Nova Fronteira, 1997, pág. 224

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